Posted at 17:05 by Luciana Cotrim, on fevereiro 13, 2021
No último artigo apresentamos a história da família e o casarão de Francesco Matarazzo na Avenida Paulista (Pode ser lido aqui). Hoje a narrativa conta a reforma feita no casarão e a vida de Francisco Matarazzo Jr, o Chiquinho e, seu primo, Francisco Matarazzo Sobrinho, o Cicillo.
Penúltimo dos treze filhos de Francesco Matarazzo, nascido em 1900, Francisco Matarazzo Júnior foi escolhido pelo pai para sucedê-lo no comando do grupo IRFM após a morte de seu irmão Ermelino, que era o sucessor cotado para o cargo.
A Série Avenida Paulista apresenta a casa do Conde Francisco Matarazzo, provavelmente a mais conhecida da avenida, que era localizada na esquina da Paulista com a Rua Pamplona, no antigo número 83 e que seguiu com sua família até meados dos anos 1980, quando foi demolida.
Com várias imagens pouco conhecidas, contaremos a história em duas partes, a primeira até o final dos anos 30, antes da mansão ser reconstruída e, a segunda até sua demolição e a construção do shopping Cidade São Paulo.
Portão da Villa Matarazzo na Avenida Paulista. Vamos entrar para conhecer?
A residência era localizava na esquina da Avenida Paulista com a Alameda Rio Claro, e recebia o número 77, na numeração antiga da Avenida Paulista. O casarão ficava no centro do terreno, no qual era possível adentrar por dois portões na avenida, como também por dois portões na Rua São Carlos do Pinhal.
Em nossa busca de imagens de casas da Paulista, por meio de uma amiga querida, a Anne de Bonneval, (da casa da família Correa Galvão, que pode ser lida aqui e a segunda parte, aqui) conseguimos contato com o Sr. Luigi Cosenza, neto do Dr. Nicolau de Moraes Barros que, muito gentilmente, nos forneceu algumas imagens de fotografias coloridas da casa, realizadas provavelmente em meados da década de 1960. Agradecemos imensamente ao Luigi que nos possibilitou conhecer a casa.
O palacete que apresentamos hoje era um dos mais requintados e belos da Avenida Paulista. Queremos mostrar um pouco dessa beleza neste texto. A mansão pertenceu a Nagib Salem, um empresário de origem síria, nascido na cidade de Homs, que imigrou para o Brasil, desembarcando aqui em 15 de dezembro em 1895.
Mais uma vez essa história será contata a quatro mãos, pois tive o prazer de conhecer o neto de Nagib Salem, o Sr. Carlos Eduardo Calfat-Salem, que escreveu um livro sobre sua origem e família e gentilmente me contou algumas passagens deste casarão.
Neste texto da Série Avenida Paulista apresentaremos três casas que pertenceram à família Matarazzo.
Das três casas, uma delas será apresentada como de propriedade de Mariângela Matarazzo. Não temos muitas informações das primeiras construções, mas sabemos que as casas ficavam ao lado do Trianon. Podemos vê-las, em sequência, em uma parte de uma foto antiga, que ilustra este início do texto.
Na Série Avenida Paulista apresentamos a Villa Virgínia, de propriedade de Angelo Andrea Matarazzo, queficava na quadra da Paulista, na altura da Rua Itapeva, onde hoje se localiza atualmente o Edifício Brazilian Financial Center.
O senador Andrea Matarazzo, como ficou conhecido, nasceu em 27 de dezembro de 1864, em Castellabate, na província de Salerno, no sul da Itália. De uma família numerosa, era o quinto filho de Costabile Matarazzo, que foi advogado e proprietário rural de prestígio local, e Mariangela Jovane. Estudou na Academia Militar no Vêneto.
Neste texto apresentamos a casa de Octavio Mendes, uma bela propriedade que ficava na Avenida Paulista, antigo número 73, onde atualmente se localiza fica o prédio do Bradesco, número 1450.
Embora não tenhamos muitas informações sobre a mansão, a história de vida do Dr. Octavio Mendes é bastante interessante.
Na Série Avenida Paulista a história do Observatório de São Paulo e da família do Sr. José Nunes Belfort Mattos, que era o seu administrador, e residia na casa ao lado dele. Apresentamos a história que se seguiu até os dias atuais, por 5 gerações da família.
Só foi possível reconstruir essa memória, que também faz parte do patrimônio de São Paulo, com a participação generosa do Prof. Dr Rubens Belfort Mattos Jr, bisneto do Sr. José Nunes, ao qual agradecemos imensamente a contribuição.
Hoje contaremos parte da história da família e do palacete de Amin Andraus, que ficava na Avenida Paulista no número 1650. Esta linda história, também será contada por uma parenta da família, que é uma senhora muito graciosa, que gentilmente me acolheu em sua casa e, mais ainda em sua vida. D. Marina, serei grata eternamente por sua enorme gentileza!
O número 1.853 da Avenida Paulista fica na esquina da Alameda Ministro Rocha Azevedo: lá foi a residência do paulistano René Thiollier entre 1913 e 1968. Como o nome sugere, a Villa Fortunata era uma das edificações mais imponentes da avenida. Projetada por Augusto Freid, a mansão, como tantas outras, recebeu a influência europeia e foi construída no estilo eclético, muito em voga na época.
A casa, construída em 1903, foi batizada em homenagem à esposa de Alexandre Honoré Marie Thiollier, que se chamava Fortunata de Souza e Castro. Muito trabalhador, ele foi guarda-livros, livreiro, sócio e proprietário da primeira livraria de São Paulo, a Casa Garroux, depois que Anatole Garraux saiu da sociedade. Conta-se que, em meados de 1878, Alexandre conheceu Fortunata: encontraram-se num rinque de patinação e apaixonaram-se ao som do Danúbio Azul.
No período da construção do palacete, a Avenida Paulista ainda era distante do centro da cidade, e o local era utilizado como casa de campo, para o lazer da família, que morava na Rua XV de novembro, no número 60, no centro da cidade, local onde atualmente está estabelecido o Restaurante Bovinu’s.
Em 1909, Alexandre Honoré viajou para a Europa para tratamento da saúde e resolveu alugar o casarão. A família de Burle Marx alugou a mansão. Na época, o casal esperava o quarto filho, que nasceu na Villa Fortunata, e viria a ser Roberto Burle Marx, o paisagista mais reconhecido e celebrado do Brasil. Dizem que foi lá que Burle Marx aprendeu, com sua mãe, Cecília Burle, a cuidar das rosas e gostar de jardins.
Por quatro anos a família Marx alugou a Villa e em 1912, o pai do pequeno Burle Marx, que possuía um curtume, faliu e se mudou para o Rio de Janeiro, onde foram morar com parentes.
O escritor, artista e empresário Rene Thiollier
Em 1913, o Sr. Thiollier faleceu em Paris, e como era seu desejo, foi trazido para ser sepultado no Cemitério da Consolação. Depois da saída da família Burle Marx, o filho, René Thiollier, passou a residir no casarão e viveu lá até a sua morte em 1968.
Paulistano, René Thiollier, nasceu numa travessa da Praça da Sé, no centro de São Paulo, no dia 29 de janeiro de 1882. Formou-se advogado na Faculdade do Largo São Francisco. Casou-se em 1910 com Sylvia Teixeira de Carvalho, sua prima, com que teve dois filhos: Maria Nazareth e Alexandre.
Intelectual e escritor, colaborou com inúmeros jornais e revistas, tais como Diário Popular, A Gazeta, a edição paulista do Jornal do Comércio, o Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo, Revista do Brasil, A Cigarra, etc. Em 1906, foi fundador com Júlio Prestes da Revista A Musa. Seu trabalho foi muito bem recebido e festejado à época.
Foi membro e secretário da Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira número 12, além de fundador e diretor da Revista da Academia por mais de 15 anos.
Em 1919, em sua faceta de ator, representou no Teatro Municipal, O Contratador de Diamantes de Afonso Arinos e, em seguida, com Goffredo da Silva Telles e Aguiar d’ Andrada, a peça A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas.
Um de seus maiores feitos foi ter sido um dos principais mecenas da importante Semana de Arte Moderna de 1922. Como empresário, foi ele que alugou o Teatro Municipal para sua realização. Na época, os jovens modernistas necessitavam de apoio político e financeiro e surgiram mecenas como René Thiollier, além de Paulo Prado, Dª. Olívia Penteado e outros que ajudaram o movimento.
Recibo de pagamento de aluguel do Theatro Municipal para a Semana de Arte Moderna de 22
Segundo o blog Idea, René Thiollier “deu uma contribuição enorme a essa terra em que nasceu e que amou tanto: São Paulo (..) teve um papel fundamental para que a Semana de Arte Moderna em 1922 acontecesse.”
Os protagonistas da Semana de Arte Moderna de 22 encontram-se no Hotel Therminus. Oswald de Andrade é o primeiro, sentado no chão. René Thioller está, à direta, na fileira do último degrau da escada
Muitas vezes, na Villa Fortunata, René promovia jantares e saraus, frequentados por artistas e intelectuais, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Monteiro Lobato, que foi casado com Purezinha, prima direta do proprietário da casa, e muitos nomes que produziram a Semana da Arte Moderna e que fizeram parte da história paulista.
René Thioller na biblioteca da Villa Fortunata
Em 1930, Júlio Prestes, Presidente do Brasil, convidou René para chanceler e, nesta ocasião, participou da Revolução Constitucionalista de 1932, sendo organizador do Batalhão de homens de 30 a 50 anos, chamado de Liga da Defesa Paulista.
Muito versátil, ele também foi um dos empresários que participou da fundação do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), inaugurado no dia 11 de outubro de 1948.
O paulista de coração faleceu em sua mansão, a antiga casa de campo dos Thiolliers, a Villa Fortunata, aos 24 de outubro de 1968.
Na sua vida, a fidelidade foi uma constante: foi fiel a si mesmo, fiel a seus ancestrais, fiel a São Paulo, que tanto amou, segundo o site Migalhas, em “um amoroso artigo de Alexandre Thiollier sobre o seu pai René Thiollier. A preciosidade textual está em uma separata da Revista da Academia Paulista de Letras, doada à biblioteca de Migalhas em 2004 pelo advogado Alexandre Thiollier Filho”.
Fotografado nas escadas de sua mansão para a matéria da Revista Manchete, com título “O Grão Senhor da Vila Fortunata”
Mais que isso: uma bela história de família que remonta aos anos 1200, na França. Vale a leitura do trecho abaixo que descreve a Villa Fortunata.
Villa Fortunata. Foto: site René Thioller
Foi nessa época que meu avô Alexandre resolveu construir uma casa de campo na parte alta da cidade. Não havia lugar de melhores ares do que a Avenida Paulista, posto que longe do centro e ainda carente de serviços essenciais. A despeito disso, adquiriu em 1903 uma grande área da antiga Chácara da Bela Cintra na esquina da rua Jundiahy, hoje Rocha Azevedo.
Augusto Fried, o arquiteto, atendendo-lhe o pedido, implanta a casa num dos vértices do terreno para preservar a maior parte possível da mata virgem do Caaguassú, que se juntava, sem interrupção, à vegetação cerrada do imóvel do vizinho. Uma tal floresta, densa e fechada, parecia intransponível por seus cipós e espinheiro que, à noite, hospedavam miríades de vaga-lumes e, pela manhã, se engalanavam com as pérolas brilhantes das orvalhadas teias de aranha.
Um verdadeiro espetáculo, a merecer os versos de Keats: “a thing of beauty is a joy for ever”. Denominada “Villa Fortunata”, a vivenda, ampla e confortável, com um torreão que a encimava, foi a casa de campo dos Thiolliers até o falecimento de Alexandre, na sua residência de Paris.”
Villa Fortunata, nos anos 1970, e seu imenso jardim de mata nativa
O casarão foi demolido em 1972, como tantos outros palacetes originais da Avenida Paulista. A área verde do parque, que se constituía no bosque existente na “Villa Fortunata”, permaneceu desde a morte de René Thiollier porque seus filhos, o advogado Alexandre Honoré Marie Thiollier e a artista plástica Nazareth de Carvalho Thiollier impuseram, por escritura pública, uma restrição sobre toda a área verde do imóvel, que impediu o avanço imobiliário, deixando um importante legado de preservação ambiental.
Diferentes ângulos de partes da casa.
O terreno de 5,4 mil metros quadrados, com cerca de 200 árvores remanescentes da Mata Atlântica, pertenceu ao Banerj (Banco do Estado do Rio de Janeiro) e chegou a abrigar um estacionamento. Em 1992, foi tombado pelo Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), devido à representativa área verde.
Em 18 de abril de 2008, por meio do Decreto nº 49.418, do prefeito Gilberto Kassab, a Prefeitura de São Paulo criou para o local o parque que recebeu o nome de Prefeito Mario Covas. Decisão que recebeu críticas da família Thiollier e de outros paulistanos.
Sra. Nazareth Thiollier, fillha de Rene Thioller, falecida em 2010
Neste período tramitava na Câmara Municipal um projeto que propunha a denominação do parque, um grupo de artistas lutou para que o parque recebesse o nome de René Thiollier. A manifestação foi liderada pela filha dele, a Sra. Nazareth Thiollier, com quase 90 anos na época. Infelizmente, não conseguiram.
Para quem quiser conhecer mais detalhes sobre a vida de René Thioller e a proposta para dar o seu nome ao parque, vale a pena assistir o vídeo abaixo.
ASérie Avenida Paulista conta as histórias dos casarões e das famílias que moravam na avenida e, também, dos edifícios que foram construídos em seus lugares.
Escrita por Luciana Cotrim, a série conta a história de mais de 80 casarões do século XX e dos edifícios atuais.